Mikhail Aleksandrovitch Bakunin (30/05/1814 - 01/07/1876)

Mikhail Aleksandrovitch Bakunin (30/05/1814 - 01/07/1876)
Um russo, louco, espontâneo, libertário, internacionalista, revolucionário... um anarquista!

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

História Medieval: Joana D'arc: a santa morta ao pecar.


Antes de começar a escrever sobre uma mulher francesa, gostaria de lembrar que Joana D’arc não foi a única mulher na França a ir ao front de um guerra ou revolução, o próprio Michelet, historiador francês que escreveu a principal sobre Joana, diz que muitas outras mulheres antes de Joana já haviam estado no front das guerras e rebeliões na França.
O que talvez diferencie Joana é o caráter religioso e profético que se nota na transformação que sofre as ações da população francesa quanto Joana revigora a fé, a crença na mudança através da indignação do presente. Joana foi o reduto que guiou a máxima da produção social medieval, no caso a forte fé no sobrenatural como condutor das rédeas do destino humano, e o ódio e raiva pela injustiça que o invasor inglês fizera com a população por causa de um suposto direito ao trono francês.
Joana D’arc nasceu na fronteira de Champagne à Lorena, em 1412. Era uma aldeia que abrigava uma abadia. Joana tinha uma religiosidade que aflorava nas suas atitudes diárias. Filha de camponeses e analfabeta, Joana vivia na Igreja ou ajudando sua família no campo ou na casa. Mas o que marca a vida de Joana e de muitos franceses nesse período é a Guerra dos Cem Anos, em que a Inglaterra se vê no direito de possuir o trono da França.
O rei da Inglaterra Eduardo III, assim como o Delfim da França Felipe VI, eram primos do falecido do rei francês Carlos IV, e isso seria um dos motivos da Guerra. Essa guerra durou pouco mais de cem anos, matando camponeses, clérigos e nobres nesses sangrentos anos de guerra. O sul da França, a Gasconha, era feudo do rei inglês e foi invadido pelo rei francês. O Flandres, principal parceiro de mercado do tecido inglês foi invadido pelos ingleses que foram adentrando no interior da França.
Muitas pessoas nasceram e morreram conhecendo apenas um mundo de medo e incertezas numa França onde os nobres e a família real pareciam não se importar com as matanças em solo francês. A família de Joana foi uma dessas vítimas. Soldados ingleses invadem sua aldeia matando, saqueando, estuprando e colocando fogos nas casas e plantações; e a irmã de Joana é morta nessa invasão.
Joana D’arc de tanto bitolada na vida religiosa, só tinha como universo todos os valores e visão de mundo que a sua religião poderia proporcionar. Mas agora havia o rancor pela injustiça que para ela não culpar o seu Deus, o todo poderoso que tudo faz e tudo controla, começa a direcionar seu rancor para sua flamejante crença no Deus cristão pregado na Idade Média. Um Deus que Fala através das pessoas e das coisas com seus devotos. Joana não poderia diferenciar onde terminava sua fé e onde começava seu rancor ou talvez não queria diferenciar, afinal, foram quase cem anos de estupros e assassinatos de homens descrentes em seu Deus Benévolo e justo.
Talvez, pudesse ter acontecido para que o seu Deus mostrasse aos homens que sem Ele, simplesmente se matariam. Então, eis que Joana começa a interpretar suas visões e sonhos de acordo com seu desejo. Joana não era mais que ninguém a não ser no que toca a sua sensibilidade na balança da justiça, justiça que eu não diria divina, mas que as prédicas de Cristo, apesar de ter sido filtradas em pró da ideologia da Igreja Católica Apostólica Romana Medieval, conservou o caráter mais significativo do nazareno: a justiça pela solidariedade humana.
Joana D’arc conseguiu o que muitos homens que estudaram a arte da guerra nem se quer rabiscaram, tomou o forte de Orleans que havia sido tomado pelos ingleses. Ela tomou indiretamente posso dizer, pois não houve milagres divinos, mas a diferença que pesa na balança de muitas lutas; seria o desejo de se libertar da opressão.
Segue que o Delfim Felipe já estava satisfeito com as conquistas. E Joana, que ainda queria expulsar totalmente os ingleses da França, para vingar as vítimas, e dar o trono francês ao Delfim (isso foi uma das suas visões, acreditou que Deus falou com ela e disse que ela em nome Dele daria o trono ao verdadeiro rei reconhecido pelos Céus). Tanto o rei Felipe quanto alguns nobres fizeram indiferença quanto aos pedidos de reforços de Joana nas suas investidas e retomadas das terras francesas, o resultado era obvio, Joana foi capturada por alguns nobres franceses aliados dos ingleses e foi vendida para os ingleses.
Joana era vista como santa para uma parte da Igreja, em especial a francesa pois estava realmente devolvendo a França aos franceses, no entanto era vista como diabólica para a Igreja inglesa, pois se dizia conversar diretamente com Deus sem intermédio dos padres e Bispos da Igreja, além de estar diminuindo as terras inglesas.
No final, uma menina de pouco mais de 19 anos, com medo e confusa estava para ser queimada pela inquisição como herege. Como ela realmente acreditava que Deus falava com ela em sonhos e em visões não quis negar suas afirmações para ter uma morte menos dolorosa, estaria então matando o que acreditava. A Igreja não a matou literalmente, mas a condenou por heresia e a entregou para o Estado inglês para fazer o trabalho sujo. A palavra herege significa em grego “o que escolhe” (hairetikis) ou para o período, os que são contrários a doutrina da Igreja Católica. Joana não era contrária a nada e apenas escolheu não mais ser oprimida por ninguém.
Depois de dezenas de anos a Igreja aceita errou com a Inquisição e santifica Joana D’arc. Talvez para ocultar as milhares de vítimas que queimaram ou sofreram todos os tipos de violência por simplesmente escolher ou ser contrário. Quando Joana D’arc estava queimando, poucos soldados estavam rindo, “mil homens choravam...” escreveu Michelet. Um secretário do rei da Inglaterra dizia bem alto ao regressar: “Estamos perdidos, queimamos uma santa!”.


Texto de Daniel da Silva Barbosa.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

História da África: A África Antes dos Europeus


A África foi cenário para a gênese e o desenvolvimento da raça humana. O local se situou no sul da Europa, Índia, Sudeste da Ásia e Austrália. Vamos, para facilitar a classificação e localização dos grupos e sociedades étnicas na África, dividir o texto em quatro regiões: do deserto do Saara às regiões próximas do rio Nilo; os grandes reinos da África Ocidental; a costa oriental que pega as regiões dos Grandes Lagos, do golfo da Guiné, da Bacia congolesa e das savanas do leste e do sul e, por fim, as regiões da costa da Guiné às da Nigéria, Camarões, Congo e aos Grandes lagos. Essa divisão é apenas para fácil localização e não uma padronização cultural ou étnica das sociedades que habitaram estes locais.

Do deserto do Saara às regiões próximas do rio Nilo.
Civilização Saaro-sudanesa
O Deserto do Saara por volta de 6.000 a.C. foi onde se desenvolveu a primeira civilização africana (saaro-sudanesa). Neolíticos que cultivavam cereais como o sésamo, o sorgo em uma época de animais selvagens, lagos e bosques que ajudavam a sobrevivência no deserto. Sua língua era o berbere, e daqui saiu os líbios, os fundadores do Marrocos. A maioria foi para o sudeste, na África Ocidental (os ussá, ioruba, ashanti) e os senufô para a Costa do Marfim, e para margens do rio Nilo Branco. Por milênios ocorreu essas migrações.
Acreditava-se que o Egito teria mais influência do Oriente Médio que da África Negra por ter tido durante séculos a Bíblia como fonte, mas alguns estudiosos, como é o caso do historiador senegalês Cheick Anta Diop, que em pesquisas afirma a influência da África Negra no Egito até 1.500 a.C. vindo a enfraquecer com as invasões dos hicsos, persas e assírios. Essa época da África negra no Egito é marcada pelo início de construções das pirâmides. A cultura egípcia poderia ter influenciado tribos que habitaram antes de migrarem para outras localidades, como os etíopes, isso mostra uma relação cultural Egito-África negra.
Reino de Kush.
Os kushitas foram expulsos do Egito pelos líbios no século VI a.C. através da Assíria introduziram o ferro na África Negra. A capital foi Meroé que sofrera influência cultural egípcia e depois dos noba que vieram de Kordofan, (axum) ao oeste. Em 325 foram invadidos pelo axumita Ezana e isso fez com que a elite culta kushita fosse para o oeste, no maciço Darfur e levou o conhecimento do ferro para a África Ocidental.
Os Sabeanos e o reino de Axum localizaram-se perto da Etiópia e do Iêmen, mantinham comércio com Meroé, Mesopotâmia, Fenícia e Israel. Apesar dos contatos comerciais, permaneceram pagãos (a religião tem raízes nos cultos fenícios). Por volta do ano 1.000 a. C. vieram grupos semitas (judeus da Arábia) e influenciaram-os com sua religião, depois seguiu a influência cristã.
Houve uma fusão do cristianismo e da religião pagã que originou os falacha, da tribo agaó, originários de uma lenda que pregou a volta de um dos filhos da Rainha de Sabá com Salomão, Menelik, que voltou e deu origem aos falacha.
Estes abriram comércio com os romanos e expandiram o território. Ezana foi o governante mais marcante por ter derrotado Meroé e ter abraçado o cristianismo através de um escravo bizantino Frumencius. A partir daí data-se laços estreitos com as igrejas coptas do Egito e da Etiópia; estes coptas logo foram afastados do cristianismo e até sofreram perseguição por estes. Foram os Axum que traduziram a Bíblia para sua língua, o guézo, e incluindo alguns livros como Apocalipse de Edras, Livro de Enoch, Livro dos Jubileus etc.
Axum mantinha comércio com Pérsia, Índia e Ceilão, mas por afinidades religiosas seria com Bizâncio que Axum alinharia sua política externa. O rei Axum Calob invadiria a Arábia do Sul para derrotar um rei local conhecido como o terror dos cristãos, o judeu Dhou Nuvas. Nesse período, por volta do século V, começa uma confusão nesse local, por influências religiosas; tribos pagãs, muçulmanas e cristãs disputariam territórios.
Os reinos da Núbia.
Depois da destruição de Meroé, os kushitas absorveram parte da migração da região saariana formando uma nova cultura. Seria os reinos de Nobatia, Dongola, Aloa, onde hoje localiza-se o Sudão. Foram influenciados pelo cristianismo copta e os cultos de Ísis. O domínio muçulmano no Egito dificultou o comércio no Nilo, essa influência cristã traria problemas também para o Egito muçulmano, pois este estava entre reinos cristãos unidos – Bizâncio e Dongola. Em 1323, muitos reinos cristãos foram conquistados até que em 1504 a Núbia cristã seria derrotadas pelos funj do Sennar.
Origens da Etiópia.
Os séculos VIII e XII foram de confusão nos altos planaltos etíopes, hostilizados pelos árabes e pelos pagãos, os axumitas, quase desapareceram, esfacelando-se em reinos autônomos. Os agaós cristianizados formaram a dinastia Zagué, mas para isso tiveram que utilizar as tradições religiosas locais; construíram uma lenda que os ligariam à Salomão por uma escrava. Mas esse fervor não impediria que os muçulmanos se infiltrassem convertendo grupos nômades como os somali, afar, danakyl. Em 1270 volta a linhagem salomânica que dá uma efervescência cultural literária (Kebra Nagast - Crônica Real). Amda Sion (1314-1344) e Zara Yacob (1434-1468) foram os governantes mais expressivos. O primeiro combateu os muçulmanos e o segundo, cristão fanático, instituiu uma inquisição no reino na tentativa de acabar com o paganismo, foi um rei aterrorizador que mantinha relações com a Europa cristã (papa e reis). Isso mostra como as novas religiões não influenciaram a população e determinadas regiões, apenas as elites. Não adiantou muito, em 1500 a Etiópia cristã cai sob ameaças muçulmanas.
A Berbéria e a África Negra.
O comércio na Núbia, Etiópia, Egito e Arábia do Sul abriu espaço para criação de Estados organizados, acontecendo também na África Ocidental. Em relação à Berbéria, não foi tão assim. Houve apenas pequenas tribos e pequenos Estados autônomos que faziam comércio com a Europa como intermediários do restante da África. Mas o ressecamento do deserto trouxe dificuldades para o comércio, o camelo só foi introduzido no norte africano no século II. O domínio muçulmano no século VII destruiu o então chamado “celeiro de Roma” que levava esse nome pelo comércio de grãos com os romanos.

Reinos da África Ocidental
O Reino do Gana está entre os reinos mais conhecidos da África Ocidental, tudo leva a crer que Gana passou a existir por volta do século V. A fonte de seu poder vinha dos impostos e do comércio. Há quem diga que nasceu com mercadores bérberes que dominaram a população negra e organizaram estradas seguras para o imposto e criaram vassalagem. Pertenciam à etnia soninké e seriam ancestrais dos sarakolé. A vinda do religioso Abdallah ibn Yacin contagiou as tribos do deserto iniciando uma guerra santa. Invasores do norte fundaram uma nova dinastia em Sijilmassa, foram para onde hoje se localiza Marrocos e Mauritânia para dominar. Passado a guerra santa, os sanhaja foram subjugados pelas tribos árabes maqil, e tiveram que trocar sua língua berbere pelo árabe, só se libertariam no século XVIII.
É necessário nessa região dizer um pouco sobre a expansão do islã que teve uma aguda influencia em especial no Sudão Ocidental. Grupos como os soninke, malinké, bambará, mossí, ussá, povos das savanas, foram muito influenciados pelo islã; mas de outros não se pode dizer o mesmo. Os tekroror do Tekrur só se converteriam através de seu rei em 1040, depois os songhai de Gao e Umé (1085 e 1097) feriam o mesmo. Mas tanto os songhai de Tekrur e de kanem (kanuri, kanembú) não seguiriam por muito tempo essa religião. O islã por muito tempo foi apenas religião das elites urbanas, dá para se ver o interesse dessa conversão pelas elites locais, controle e expansão comercial. O restante da população conservaria seus ritos próprios, oriundos do interior africano.
O sultanato de Mali já existia desde o século XI, como vassalo do reino do Gana. São da etnia malimké ou mandinga, estratificada em clãs regionais. As suas cidades destacaram-se no comércio, com pecuária e agricultura aos arredores. Foi essa elite urbana que trouxe o islã para a região. Seu governante mais expressivo foi o massa (título real) Ulê (1255-1270). O historiador Al-Omari em 1336 escrevera que esse reino seria o mais importante reino negro muçulmano da África. Mussa trouxe teólogos, cientistas e artistas que marcaram seu reino. Elevou um fervor islâmico e censuras a alguns ritos locais, grande parte dos povos ainda continham as religiões pagãs. A elite islâmica espalhou seus agentes comerciais (os diulá) por toda a região para ampliar os entrepostos.
Uolof, fulani, dogon e mossi. Por volta de 1300, nas margens direita do rio Senegal, os uolof, vindos do leste mestiçaram-se com os sereré, formando o reino de Dlolof que dominou os ualô, Cayor, Baol e Siné-Salum. Nessa época os fulani, descendentes das antigas populações, emigraram para o oeste ocupando Macina, ao sul de Timbuctu. Ao sul de Mali, ocuparam-se tribos pagãs: os dogon seriam cristianizados. Os mossi construiriam no século XIV cinco reinos (Ugandugú, Yatengá, Fada-n-Gurma, Manprusi e Dagambé) e comerciariam e pilhariam Mali, Timbuctu e Jené.
Reino dos Songha eram vassalos de Mali. Este reino saqueou o antigo dominador. Em 1468, Ali-Ber, com o apoio da população expulsou os tuaregh de Timbuctu e virou o senhor das rotas comerciais. Manifestou favorecimento as elites islã. Mas parece que teve uma certa independência destes, pois assegurava apoio as massas rurais pagãs sendo que estes não influenciavam no seu comércio.
Ussá, localizado ao sudeste de Songhai, este reino chegou as savanas do norte antes do século X. Havia uma liberdade religiosa nas cidades ‘legítimas’ (Daura, Kano, Rano, Zaria, Gobir, Katsina e Biram) e liberdade de língua. Mais tarde fundariam as cidades ‘ilegítimas’ (Huari, Kebi, Kororofá, Ilorin, Nupé, Yelua e Zamfara). As cidades ‘ilegítimas’ exerciam influência sobre as populações vizinhas e eram apenas para a classe dominante do reino. Seria por isso que permitia certa liberdade cultural, por causa dessa divisão geográfica? Nessas cidades ‘ilegítimas’ havia uma mestiçagem étnica com os iorubá e outras etnias. O islã se expandiu lentamente por esse reino. Em 1550 um viajante descreveu esse reino como de ‘artesãos civilizados e ricos comerciantes’.
O Reino de kanen – Bornú. No século XI os governantes de Kanen, mais um reino das terras sudanesas, se convertem ao islamismo. Chegando até a enfrentar revoltas populares por ter profanado o fetiche tribal mune. Expandiu o reino para o norte e aumentou o comércio. Kanen muda de nome após a derrota dos clãs Daud e Idrissa em 1384, para reino Bornú.

A Costa Oriental
Segundo uma lenda, próximo da atual Somália, estariam as lendárias cidades de Rhapta e Shunguaya da “civilização azaniana”, que englobara também Engarruka e Uganda. Essa região fazia comércio com a Arábia do Sul e a Pérsia. Adquirindo porcelana chinesa, tecido indiano e manufaturados greco-romano por marfim,e ferro e escravos (séculos VII-XIII). É também nessa época que iniciou penetrações maiores para o oeste até a costa africana por grupos majoritários da Micronésia, Polinésia. Kiloa era a principal cidade da costa e vista em 1331 como uma das ‘mais belas cidades do mundo’. A chegada dos portugueses no século XVI desorganizou as atividades dessas cidades.
Olhando para uma África desconhecida. Para obter informações da África anterior ao século XIV é necessário basear-se em dados arqueológicos, lendas tribais e até analisar especulações. Os povos dos Grandes Lagos, do golfo da Guiné, da Bacia congolesa ou da savanas do leste e do sul se diferem em diversos sentidos e o conceito usado para classifica-los tem sido o lingüístico com divisão em sete grandes grupos: Khoisan, tuá, guineense, batu, hamita (ou kushitas e etiopicos), nilóticos e nolo-hamitas.
Os grupos das savanas do sul e da floresta tropical, os khoisan, habitavam as savanas do sul, sudoeste da África. Eles se dividiam em dois grupos: os San e os khoi-khoi. Ambos de estatura baixa e pigmentação amarelada. Os san são os mais atrasados do mundo, não praticam a agricultura, nem a pecuária, nem o comercio, apenas coletam ou pilhar os vizinhos. Sua organização social se limitava a bandos de trinta ou quarenta pessoas. Mas suas pinturas rupestres são muito admiradas até hoje. Os khoi-khoi se diferem dos san pela sua sociedade ser mais estratificada e pelo pastoreio. Também terminaram confinados em regiões mais inacessíveis por causa de adversários.
Nessas regiões houve grandes migrações, vamos ver suas causas. O ferro veio para a África por volta de 600 a.C. Os nok já usavam o ferro em 200 a.C. os Zambere no ano 100, e os Limpopô em 300. no ano 1000 os únicos que não conheciam o ferro no interior da África eram os khoisan e os tuá. Os Sofala até exportavam seu ferro para a Índia. Esse domínio do metal trouxe o aumento da produção de alimentos que levou a explosão demográfica, que por sua vez ao surgimento de novos povos. A introdução de novas plantas da Indonésia (cana-de-açúcar, arroz superior e a banana), e logo depois dos portugueses (manga, mandioca, ,milho e o coco), espécies de gados mais resistentes da Índia (Zebu e sanga). Tudo isso por volta do século VIII e XVI trouxe transformações nas localidades dos povos dessa região.

Da costa da Guiné às regiões de Nigéria, Camarões, Congo e aos Grandes lagos.
Essa região compreende a atual Serra Leoa e o delta do Níger. No interior desenvolveu-se reinos muçulmanos do Mali e Songhai e Bornú. A costa e a floresta abrigaram sociedades bem diversas, sem grandes Estados. Sociedades como os baga e os mengué desenvolveram artes de máscaras e estátuas. Estados guerreiros como os akan. No delta do Níger grupos como os ijô, ibibiô, ekoi e ibô estabeleceram pequenas aldeias.
Os Iorubá do golfo se destacam pelo seu poder político de reinos unificados pela língua (anagô ou nagô). Foi com os ifê que os iorubá alcançaram o apogeu artístico bem diverso de outros povos. Os Oió destacam-se pelo poder dos seus guerreiros, influenciados pelo deus Xangô, e sempre lutaram pelo rio Axum. Em Benin, vizinhos dos iorubá, os Oió passaram por varias rebeliões por causa das injustiças de seus governantes. São semelhantes aos iorubá.
Vamos listar as expansões Bantu para melhor esclarecimento deste grupo. Dois terço da população africana são de bantu. São tribos diversas que apenas se ligam pela lingüística, sem unidade racial. Os primeiros bantu surgiram na atual Nigéria e Camarões, por volta de 500 depois de Cristo. Distribuíram-se no planalto da Shaba ou Katanga. Seu ciclo migratório duraria até o século XIX. A agricultura era exercida pelas mulheres nas florestas tropicais e o pastoreio pelos homens nas savanas do centro-sul da região oriental. Divididos em clãs matrilineares descendentes do mesmo herói fundador. Os bantu podem ser classificados pelas cinco regiões geográficas onde se estabeleceram. São elas: a floresta tropical, a savana atlântica, o planalto central, meridional e oriental.
Bantu da floresta tropical, tribos de dimensão reduzida por causa do habitat hostil. Os mpongué, bakotá,birá, bateké, lelé só foram vistos no século XVI; se dividiam pelo médio Congo, pelo rio Kasai e na franja da floresta.
Bantu da savana atlântica, também são tribos e localizavam-se na margem esquerda do ri Congo e do deserto da Namíbia, ao sul. Alguns até organizaram Estados. O mais notável é o reino do Manicongo dos bacongo, que até tiveram províncias. No norte os bavili, povos do Loango, ao sul, utilizavam a metalurgia. As tribos ao sul (balundi, ovimbundo, ovambo e herero) eram pastores e com pouca organização social estabilizada.
Os Bantu do planalto central desde o século VIII já habitavam as margens do lago Kisale e já praticavam a metalurgia do cobre. Em 1500 foi fundado o reino lubá que deu origem a povos ao sul e a oeste.
Bantu meridionais. Em geral eram pastores com organização em aldeias e no século XVI ainda não ultrapassariam o rio Orange em sua expansão territorial. Destacam-se dois grupos lingüísticos: nguni e sotho.
Bantu orientais são tribos da federação Malavi e localizavam-se, por volta de 1400, na margem oriental do lago Malavi (grupos como os chewa, chipetá, nyanga e nyasa), os povos do atual Kênia (Kikuio, Merú e Kambá); além dos niamuezi, sukumá e bahutu das cercanias de Grandes Lagos. Estes, volta de 1300 passariam a se organizar em grupos de aldeias reunidas por uma chefia (ntemi).
Os Hamitas são conhecidos também por Kushitas ou etiópicos. Habitaram as proximidades do chifre da África desde o século VII a.C. Estes são pastores e alguns sofreram miscigenação com os semitas da Arábia do sul. Antes do século XVI, somali, danakyl, sidama e afar não passavam de tribos esparsas no território desértico. Os galla dispersaram-se nas cercanias do lago Turkana. No século XVI penetraram na Etiópia cristã, daí ser chamados também de etiópicos. Outros grupos hamitas foram para os Grandes Lagos (região nas localidades da atual Uganda, Ruanda, Tanzânia e Kênia), entre 1350 e 1500, onde estabeleceram próximos ao lago Nanza e onde fundariam a dinastia chuezi.
Os Nilóticos eram tribos com origem nas regiões pantanosas do Nilo Branco (entre o leste do Sudão e o oeste da Etiópia) e com constituição étnica particular: grande estatura e compleição esguia. O pastoreio era sua riqueza e sua organização social. No ano 1000 haviam três tribos principais: os nuer, os dinka (estes não formariam um Estado organizado) e os luo.
Os luo subdividiam-se em mais dois grupos: nyikango, que deu origem a tribos shilluk do Nilo Branco e formariam o Estado Reth no século XVI. O restante dos luo ficaria ao sul e organizariam novos povos (acholi, langô, alur, busogá), estes luos não tinham mais nenhuma unidade étnica com os restantes. Outros grupos luo penetrariam no território do atual Kênia.
Nilo-hamitas, pastores (masai, nandi, turbana, laramojong), habitavam nas cercanias do lago Turkanas, de onde migrariam para o sul em meados do século XIII.
Os reinos Hima-Tutsi se abrigaram nos Grandes Lagos em pequenos reinos de sociedades muito hierarquizadas, únicas no continente. No geral, eram elites de pastores hamitas e ou nilóticos que se impôs a uma massa de agricultores de origem bantu, muitas vezes com preconceitos e arrogância.
Os chuezi hamita e os luo nilóticos submeteram os nioro, gandá e nkolé, que passariam a ser os reinos de Bunioro, Buganda, Ankolé, etc. O mais notável foi Burundi, a noroeste do lago Tanganica, com uma casta pura (ba-tutsi) e uma impura (ba-hima) que exerceria tirania sobre os inferiores agricultores bantu (babutu).
Embora proibidos os casamentos entre castas, com o tempo os dominadores tiveram que absorver a cultura dos oprimidos pela quantidade muito maior que possibilitavam a supremacia cultural. Um grupo de dissidentes inconformados com a suposta “liberdade” dos tutsi do Burundi frente aos hutu (de etnia hamita ou luo), formam o reino de Ruanda, com uma hierarquia mais rígida.
Este texto, obviamente, foi apenas um esboço da África Antiga. Mas podemos perceber que apesar das influencias religiosas extra-africana, muitas sociedades não adotariam de imediato o islã, a não ser as elites interessadas no comércio. No caso da religião cristã, também teve uma efetiva influência mais em povos com raízes judia ou cristã. Estas duas religiões foram mais um atrativo para as lutas entre Estados, cidades e tribos. As religiões influenciaram o comércio, mas pouco a cultura africana antes de uma maciça empreitada européia. Mas sem tirar os efeitos do islã em muitas tribos e Estados. O que mais pode observar é que prevaleceu as diversidades dos povos africanos e uma efervescente mudança constante, tanto geográfica, político-econômica por parte de algumas localidades e até cultural em outras.
A geográfica, com seus motivos específicos, colaborou para a nascença de novos grupos e para a ocupação mais ampla do território africano. A política, junto com a econômica, ajudou ampliar relações além do limites africanos, a dieta de muitos grupos africanos, e trouxe alguns conhecimentos, como a metalurgia; isso não quer dizer que a África era atrasada, já citamos o caso do Egito e outras cidades muito consideradas fora da África. A cultural englobou todas as transformações citadas, pois foi o resultado da relação, tanto com diferentes grupos dentro da África, quanto com sociedades fora da África que colaborou a manutenção social africana.


Foto: tribo mursi na atual Etiópia. Créditos de J.R. Duran.
Referência:
RODRIGUES, J.C. África Antiga. In_______.RODRIGUES, João Carlos. Pequena História da África Negra. São Paulo: Globo; 1990. pp.09-84.


Texto de Daniel da Silva Barbosa.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Artigo: Notas sobre a falibilidade da história

Paul Veyne disse algo sobre a impossibilidade da história ser uma ciência por diversos motivos, dentre eles o fato dela não poder resgatar integralmente o passado pela incapacidade de, através dos documentos – seu material de pesquisa – resgatarem na integra e sem lacunas o fato histórico. Ela, por tato ela é lacunar em seu resgate.
Vou reforçar essa posição por ter refletido sobre uma visão de um outro historiador que não lembro seu nome no momento, mas que ele estudou as relações da população latina no período que aborda a inquisição moderna na América Latina. Esse pesquisador usou um termo que aparentemente eu não havia interpretado muito bem, apesar de ter acreditado que tinha. Esse termo foi o de Intriga. Ele designou esse termo para explicar a maneira que o policiamento e fiscalização aos hereges se deu, em especial ou não, aqui na América Latina.
O termo Intriga foi usado para com conceituar o ato de policiamento, que segundo o autor, não era apenas dos responsáveis pela execução do ofício de juiz inquisitorial e seus subordinados, mas sim de toda a população que, ora aproveitando para se dar bem em cima das leis inquisitoriais, ou simplesmente no afã do medo de ser alvo, inocente ou não, do tribunal inquisitorial. Policiavam-se colaborando com o tribunal.
Vou colocar nessa análise o termo da sociologia associação e grupo social (pesquisar melhor o significado). A intriga no caso da inquisição moderna na América Latina só foi possível graças ao laço social que estabeleceu os grupos sociais. O homem é um animal social, é fato, ele por ser social desenvolve em diversos sentidos sua forma de comunicação através do grupo em que ele está inserido; ou seja, ele estabelece uma maneira específica de se relacionar com uma forma comunicativa específica de acordo com o tipo de comunicabilidade que o grupo que está inserido usa para se comunicar. Essa comunicabilidade também exige ações e valores específicos como um tipo de ética de relacionamento, um determinado conceito de honra e valores diversos que não precisamos alargar os exemplos, mas que dão uma afinidade para manter o relacionamento com características próprias para configurar-se em grupo ou associação.
Essas ações e valores estabelecem uma amarra que liga os membros do grupo como em uma teia de aranha. Essa teia pode funcionar como vetor de idéias, valores, condutas exteriores ao grupo; serve também como um serviço que distribui informações de várias magnitudes.
Esse serviço muitas vezes escapa dos documentos que registram o fato histórico. Um ato pode nos mostrar parcialmente o combustível que o inflamou, algo concreto e facilmente, ou não – de acordo com a variedade de informações que o documento passa - visível para o pesquisador. Mas o que torna lacunar a informação é essa intriga, que não fica explícito, por exemplo, o tom de voz da frase impressa e as vezes na resposta a frases impressa não se absorve o grau de afetação desse tom de voz; outro exemplo é a subjetividade na comunicação dos personagens estudados, por mais que tentamos passar por uma peneira as inverdades e falhas que o documento mantém o pesquisador não está a par integralmente da subjetividade dos personagens.
A respeito da subjetividade tratada nesse caso vamos ampliar um pouco os argumentos. Coloco subjetividade para estabelecer uma distancia do pensar do personagem e da ação. Concordo que o estudo histórico é feito mediante a ação e não na abstração psíquica e metafísica do personagem; mas vale alertar que por mais que nos limitemos à ação os estudos não podem nos esquecer que ela parte de algum lugar e esse lugar pode vim do lado espontâneo, ou seja, sem uma pré-reflexão e sem uma construção abstrata do personagem sobre seu ato; porém cabe levantar que há também a construção precedente do ato que não chega até o pesquisador, nem tudo que pensamos se torna ação, mas quase tudo que pensamos influencia explicitamente ou camufladamente a ação. No campo subjetivo o percurso que a mutação da reflexão ou construção precedente faz são caminhos inalcançáveis para o pesquisador e de uma considerável incompreensão para o personagem que está vivendo aquilo e não tem toda a tranqüilidade e ferramentas que o pesquisador se dispõe.
Essa lacuna que a subjetividade proporciona não é somente individualmente, não, se estabelece também no fenômeno social, quantas vezes não no envolvemos em intrigas familiares, em círculos de amigos, no trabalho, na escola, que o que fica de perceptível são apenas disse que me disse e sem haver nada de concreto, mas que seus personagens sabem o porque de ter tomado tal atitude; atitude que também tem um pé no mundo inalcançável da análise, mas nem por isso é inofensiva para o fenômeno que se estabelece na socialização do grupo.
Essa intriga amplia-se por que, como foi posto acima, ela usufrui do campo que a comunicabilidade típica do grupo deixa maculado na relação, que não se limita geograficamente, pois um membro de um grupo social pode se deslocar geograficamente para outro grupo e podendo ampliar seu campo de convívio social, estabelecendo comunicabilidade com vários grupos, no entanto, aqui tem um limite de assimilação das ações e valores que permitem ou não a afinidade com o novo grupo. Por tanto, as intrigas podem se ampliar saindo dos limites geográficos do grupo específico alcançando um efeito maior. Esse campo que a comunicabilidade estabelece é o campo que é usado para propagar preconceitos, exclusão, idéias variadas, punição a alguém do grupo, distribuição de novos pensares, etc.
A falibilidade da história está em não poder, por motivos que o próprio objeto de seu estudo contém que é a não objetividade em sua ação. A história para diminuir essa lacuna está interagindo com outros campos das ciências humanas como a psicologia, psiquiatria, antropologia; mas essa dificuldade também está para estas ciências como está para a história, o que as diferenciam é a forma que estas olham para seu objeto. Essa lacuna que começou a ser olhada e lavada em consideração a algumas décadas, mostra mais do que nunca que a ciência, pelo menos a humana, deve ser sempre posta em dúvida, não para desqualifica-la, mas para se aperfeiçoar, se estamos em uma época que visivelmente ainda respira o chacoalho que a pós modernidade fez para a sociedade é por que o questionamento da generalização, da conceitualização, da abstração e da subjetividade levantadas no século XX ainda não foram superadas. Nascerá uma nova forma de ver o Ser Humano e Ser Humana neste próximo milênio com certeza!

Texto de Daniel da Silva Barbosa.